Muitas vezes tenho reflectido sobre a sorte de não viver num condominio fechado.
E até de não conduzir. É sem dúvida também nas ruas e transportes públicos desta minha cidade, que tomo a medida real do povo que somos. Nem sempre o contacto é de esperança. Nem sempre o conhecimento do outro, nos traz alguma empatia ou conforto. Nem sempre acontece gostarmos do que vemos. Mas a realidade, transpõe coerente e racionalmente o que nos identifica nos outros. É também no choque, no assombro, que tomamos a medida do real que somos.
Individual e colectivamente vamos abordando a realidade alheia: dois passos à frente, um atrás.Encontros de segundos, outros mais alongados no tempo e no espaço, todos são plataforma de possível conhecimento e crescimentom ainda que a percepção sem concepção seja cega. Porque será que uma pessoa má, sem valores, amarga, invejosa, mentirosa, lê diárimente, a caminho do emprego, Paulo Coelho? Que procurará nele?Que lhe dará ele?
Que será que aconteceu à mulher que entra no café e abruptamente à laia de troco, sacode para o balcão um "só encontro merda no meu caminho"? Que vida terá a outra que da sua janela no Bairro Alto desabafa com a vizinha, "oh filha vou mudar a fralda ao velho, que eu tenho uma sina fodida "? Sei que são também estas, as pessoas reais da minha cidade, para lá do jazz à quinta no ccb, para lá da Catarina com o doce sabor a maçã de António Alçada Baptista e outras Severas, de quem reza a história. E assim, atenta aos sinais e aos outros que comigo se cruzam, gosto de trazer para casa um sinal que seja de mudança. Nem sempre acontece, mas aconteceu ontem.
Estavam 37º e o sol a pique. Sentada numa paragem de autocarro, vi chegar o grupo de homens,
oriundo da mesquita, onde tinham terminado os serviços religiosos. Atrás deles, caminha um homem sózinho, carregando um saco que se adivinha pesado. Agora todos nós fazemos parte do mesmo grupo (indiferente a raças, credos, culturas): estamos a um passo da Gulbenkian, numa paragem, aguardando o mesmo autocarro, sob um sol rigoroso e inclemente.
A surpresa começa a acontecer, quando o último homem, o do saco pesado, vem ao nosso encontro. Abrindo-o, apenas com um sorriso, oferece o (ainda) misterioso conteúdo. Do primeiro ao último homem percorridos, todos retiram do seu interior uma pequena garrafa de água. Incrédula, percebo que agora se dirige a mim. Também eu sou abençoada com uma garrafa de água, que agradeço retribuindo o sorriso.
São estes retalhos de vida real que me fazem acreditar na mudança.
São estes pequenos recipientes de água e de esperança, que me fazem validar o pensamento:
a mudança somos nós.
A mudança está em nós, se metafóricamente não vivermos num condomínio fechado e se, sem qualquer metáfora, conseguirmos sair à rua, crentes de que não somos donos de nenhuma verdade absoluta. É afinal tudo tão relativo, neste mundo em constante mutação...
Música: Ray Lema, e Búzios de Ana Moura.


