Domingo, Dezembro 20, 2009

São vários os que me povoam e a cada um, com o tempo, fui dando um certo papel, não mais que o especificamente desejado. A velha e o gato. A margarida que não naufragou em terra e que teima no não. A mulher sem idade que veste o avental de pano cru. A menina. A menina é fundamental, digam o que disserem. É ela que ajuda a velha a subir para o animal mitológico que a pode derrubar. É ela que se ri dos fantasmas da velha, provocando na outra, a ironia. É ela que muitas vezes afaga o gato, ainda que o gato só tenha olhos para a velha. É ela, ainda, a menina, que desafia a velha a abrir a janela, a calçar as botas, a apanhar a chuva nos ossos. É ela que se senta de pernas cruzadas no chão da cozinha, vendo a mulher cozinhar e nos dias de correria culinária, de quando em quando, lhe tira os cabelos dos olhos e a incita a mais uma fornada.



Não tendo nunca reconhecido conhecer a face negra de mundo, deus, homem ou mulher, sempre lhe coube a ela, menina, o papel de guardiã dos enfeites de natal.







É ela, por isso e por fim, que na sua irreverência ingénua de papel distribuído não mais que o especificamente desejado, vem desejar a todos, ateus, agnósticos, religiosos submissos ou protestantes insubmissos, espirituais ou espirituosos, um natal de amor e paz, na harmonia possível do quotidiano feito data.







Não desiste ela, do Amor.



E ainda bem.







Sábado, Dezembro 12, 2009


O peixinho dourado adormecido...











Quando desenho, existem sempre três imagens: a que imagino, a que o traço escreve, a que, através de um conjunto de luz e cor dado por uma qualquer técnica, arte ou feliz acaso, aproxima as duas anteriores, retirando margem às diferenças abismais que no início, claramente as demarcavam.

Contudo, neste mundo abstracto e tão vago do imaginário, difícil é afirmar, qual o peixinho dourado, que realmente dorme no fundo do lago, esperando a primavera...

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009


Indiferente às luzes natalicias, ele desce a cidade, sobre a cidade.
Olhar desfocado, braços abertos, tentáculos sedentos.
Leva para a sua gruta, terminada a rusga, todos quantos, a ele sucumbiram.
Impiedoso, não poupa os corpos caídos nas ruas, semi adormecidos semi em coma de vida.
Ri-se dos povos a ele sujeitos, dos mais fracos, dos que o olham desamparados, sem escudos protectores.
Pé ante pé, o inverno chega.
Em todas as sociedades desenvolvidas do século xxi em letra pequena, quantas pessoas dormem ao frio?

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Este post não pretende ser mais que o encontro entre três energias, que por coincidência se cruzaram durante a última semana.

A de Julieta Cervantes, fotógrafa, que descobri por puro acaso, quando tropecei num pequeno livro, onde uma fotografia da sua autoria vinha publicada e de quem publico duas outras, encontradas na net, completamente encantada com o trabalho desta mulher.

a da Amnistia Internacional, que luta por uma sociedade global mais justa.

a de Meredith Monk, cujo trabalho me foi apresentado pela Zuli, a amiga dos desenhos no blog "nas asas de um lápis".

Talvez seja apenas uma visão minha, confesso que nesta tarde de chuva, fotografias, educação de Direitos Humanos e músicas, todas se interligam de forma perfeita.






.





.

Domingo, Novembro 22, 2009

Bem me parecia que me estava a esquecer de algo. Olhava à volta e não conseguia perceber o quê. Que coisa teria eu posto numa lista de espera apenas existente na memória que continuava a piscar por ainda não ter sido realizada? Verifiquei duas vezes a máquina de lavar roupa, olhei de soslaio para a de louça. Tudo pacifico. Espreitei a dispensa e corri as varandas. Nada. Remexi na mochila em busca de um papel que me servisse de auxilio. Não existia papel. Casa aspirada, tudo no sitio e penso: vou visitar os amigos do costume, desejar uma boa semana, ler tudo quanto escreveram nos últimos dias. E é quando esta pequena dose de tempo meu e vosso -nosso- abre, que por fim o alarme dispara descontrolado em luzinhas intermitentes: a pequena dose insegura nascida de uma qualquer travessa da espera e de uma chávena de café, fez ontem um ano!

Escrevi mais do que alguma vez, pensei escrever.
Fui mais lida do que alguma vez, imaginei ser.
Fiz mais amigos do que alguma vez, esperei fazer.

Se voltei hoje é porque vos gosto de ler, de ter, de saber, de pertencer.

Que se lixe a boa escrita, que se lixe hoje a escrita poética.


Brindemos à amizade, aos bons momentos (e aos maus, que com vocês ao meu lado pareceram menos difíceis) brindemos às empatias, às solidariedades, brindemos aos caminhos que fizemos de alguma forma juntos, porque se vos leio e se me lêem e se eu comento e se me comentam, de alguma forma em algum momento, estivemos juntos, lado a lado ou olhos nos olhos.

Brindo a vocês!

E que a pequena dose me perdoe, mas hoje não há café.


Obrigada por este ano. Um abraço, com tudo o que sou, com tudo o que me ajudaram a ter.






Sábado, Novembro 14, 2009

.
.
.
"...não é bem um silêncio...
é uma ausência de voz..."




Terça-feira, Novembro 10, 2009

... Debato-me há anos numa questão "somos nós que escrevemos a nossa história ou será a [eventual] história escrita por outros que nos descreve? "

Enquanto não obtenho resposta nem a conclusão final chego, vou-me deliciando pela mão experimentada de Mario Vargas Llosa, "O Paraíso na Outra Esquina", que através das vidas de Gauguin e da sua avó Flora Tristán, nos faz pensar onde se encontra o paraíso: na construção de uma sociedade igualitária ou no retorno ao mundo primitivo?