Falta-me disposição e tempo para espreguiçar as ideias.
Esticá-las, discipliná-las ao sol.
A minha mãe continua a precisar diáriamente de mim. A máquina da louça avariou. O site do Manel dá erro. O Gerês, o meu amado Gerês, arde. Hoje tenho o jantar semanal de familia e não sei se faça o bacalhau Espiritual se faça o bacahau à Gomes de Sá. Ah! já sei, a filha R. prefere o Espiritual.Tenho muitas saudades da minha filha C. e da minha neta, e não vou poder lá ir, tão depressa. A falta de tempo dá-me a sensação de que ando sempre a correr, sem, contudo, sentir, que fiz algo de importante ou digno de registo. Entre legumes ao vapor e paginas de livros lidas enquanto percorro as ruas da cidade, algo de mim, vai ficando pelo caminho. E na pressa, já não volto atrás, para o recuperar.
Falo de amor enquanto preparo sopas e dou a mão à minha mãe, subind lentamente os degraus até ao meu 2º dtº. Mais tarde, ajudo-a a tomar banho. Deixo a água quente a escorrer sobre o seu corpo pequenino e magro, esperando que as mágoas, dores e medos deslizem com a água. No vapor da casa de banho aquário, há restos de mim que escapam pela fresta da porta. E na urgência de enxugar a minha mãe, sem que ela se constipe, não abro a porta para os recuperar.
Olho para amanhã: talvez me espreguice e volte a disciplinar ideias.
Hoje estou demasiado ocupada. Não tenho tempo para mim.
(segunda-feira, já a parecer terça-feira)
Esperança num amanhã (ainda que fustigado).
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Esperança.
Dá-me a mão. Vês?
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Música: Rabo de Nube, Zuzana Navarova.
2ª: Cantar de Emigração, Adriano Correia de Oliveira.



