segunda-feira, abril 13, 2009


Pastelaria


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Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
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Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
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Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
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Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
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Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
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Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
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Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
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Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
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No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


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Mário Cesariny
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Declamação: Pastelaria, de Mário Cesariny, Os Poetas.

20 comentários:

Teresa Durães disse...

chegar aqui de manhã e ver um pastel de nata, francamente, é sadismo!

Marina disse...

afinal o que importa são as nossas acções e não aquilo que dizemos...

alex disse...

O que importa não é o que dizemos mas da forma quedizemos . E da maneira como encaramos as coisas
um bom dia amiga


e um bom pastel de nata sem estar azedo

Lizzie disse...

Pois a mim o que me importa é ir a Belém, estacionar o carro sem multa a espreitar em ameaça, correr como quem prega rasteira à lei, sentir-me tão estrangeira como os que nunca fazem cá vida,saber que a pertença a sítios tem hierarquia na memória e que, esta paisagem, talvez seja um cabo miliciano a olhar para o gabinete do general, pedir um pacote de pastéis a contar com quantos os vão comer,"olhe, se puderem ir bem acondicionados é que vão fazer uma longa viagem, muito obrigada" e sempre com um ar ausente e robotizado, lá os arrumam com se me arrumassem a mim e aos outros numa rotina amarga, pagar, correr, entrar, desligar os 4 piscas e pensar que nos "natillas", transformados em mito, vai uma lembrança de viagens, de qualquer coisa que, talvez sendo igual, agarra o creme à memória de um sítio.
Como as pessoas da província, a viver na cidade, enchem o carro de batatas para ver se o estomago não se esquece da infância.
Talvez seja o único orgão que a mantém intacta.

Besos

mdsol disse...

Muito bem! E, nesta altura de tanto doce, dá para pensar de modo diferente naquilo que "engolimos".
beijinho
:)))

prof disse...

Pois era, o leite estava muito azedo, no Portugal em que Cesariny escreveu este texto. E, agora, o caldo entornou e também começa a azedar. Se a malta não apaga o lume ao tacho... lá se vão todas as liberdades.

alice disse...

:) adoro este poema e muitos do cesariny, que nos deixou um espólio intelectual valiosíssimo! beijinho grande, arabica :)

ze disse...

o que importa é não ter medo.

vaandando disse...

.. o que importa é desimportantizar, como disse O`NEIL...
e vai um pastel , mas de BeLém!
Abraço amigo, Arábica!

__________ JRMARTO

Duarte disse...

Que bom!!! Acertaste!!!
Que bom aspecto que isto tem... o meu colesterol vai ir pelas nuvens! Voar... sempre no ar.

Um bom poema,
que recitado,
entra como um bom doce.
Será pecado?

Beijinhos doces

Alien8 disse...

Arabica,

Discordo da Teresa. Sadismo, nunca. Chegar aqui e ver este gigantesco pastel de nata é motivo de gula e põe qualquer um(a) a salivar. Acho que é uma obra de caridade :))))

O poema está muito bem escolhido, evidentemente. É um dos meus preferidos do Cesariny.

Val Du disse...

Oiiii!
Tenho algo para você lá no meu blog.

Beijinhos.

Justine disse...

Afinal o que realmente importa é não confundir pastéis de nata com "paninhos quentes"!! O Cesariny sabia-o bem:))
Então porque raio continuo a salivar?

Rui disse...

Tudo é assim, desde que com canela por perto.

(refiro-me ao pó extraído da casca da respectiva árvore, não do osso tantas vezes martirizado, que nos faz coxear por aí)

jorge vicente disse...

ah o grande cesariny!!!!!

um grande beijinho para ti
jorge

pb disse...

Afinal o que importa mesmo é olharmos em redor....

Um pastelinho de belém até que marchava agora !!

Beijos

Leonor disse...

cesariny. excelente escolha
a pastelaria ou o estado novo
a poesia feita na clandestinidade.
beijinhos

OUTONO disse...

O que importa é reconhecer os valores...alguns tão esquecidos!

Beijo.

legivel disse...

afinal o que importa
é estar de saúde
e andar muito à pata.
Fazer uma pausa e transpor a porta
daquela casa cheia de virtude
lá para belém
e comer um nata*
que sabe tão bem.


* ou dois ou três ou quatro...

beijinhos sorrisos.

maré disse...

a audição deste poema editado em "entre nós e a palavras" há já uns anitos, fez com que suspendesse as compras para vir para casa ouvir o cd que tinha acabado de comprar.
e a força das palavras nunca mais me abandonou.

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um beijo enorme