Ilusão ou chocolate? é a pergunta que me assalta à noite, quando os adormecidos sonhos de uma diferente realidade sucumbem à certeza do corpo finito e do gesto limitado. Revestem-se de ilusão - na expectativa do tempo - até os corpos de candidatos a uma qualquer presidência. Não ficamos indiferentes, projectamos neles as nossas esperanças. Reveste-se de ilusão - utópica do sentir- a música que nos espanta, acabada de descobrir. Revestem-se de ilusão os rostos que se cruzam connosco, personagens quixotescas, nas redes sociais. Ilusão, digo bem. Parece existir uma maior empatia antes do conhecer. Depois, rápidamente, se evaporam no nevoeiro. Era ilusão o que os movia?Ficam os que, sábios -desiludidos?- não a buscam nem a procuram e nos vão encantando nas empatias reais do ser humano em descoberta. Vivemos de pequenas a grandes ilusões.A ilusão de um número. A ilusão de uma imagem. A ilusão de um status. A ilusão de uma viagem. A ilusão de uma cor. A ilusão. Conseguiremos viver sem ilusões? Conseguiremos sustentar a amargura de um esqueleto sem um doce, um chocolate? Debato-me nesta questão sempre que no supermercado, com um gesto rápido e apararentemente supérfulo, ponho no carrinho das compras meia dúzia deles. De quantas ilusões precisamos para não sucumbir ao forte peso do mundo e em situações extremas, ao tédio que a nós próprios inspiramos?Qual o número mensal de ilusões que sustenta o nosso corpo?
Fotografia de Fernando Lemos (salvo erro, Alexandre O'Neill o retratado)