domingo, janeiro 25, 2009

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Rasgo
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porque é urgente quebrar o feitiço da melancolia que nos detém, desta mórbida nostalgia que nos arrasta a alma, sem sequer almejar a ser diferente. Rasgar o hábito, o sofá, a areia onde todas as noites escondemos a cabeça, para não pensar, para não sentir, para não perceber, para não sofrer.
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todos os cinzentos.
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todos os dias pardos de que enchemos os olhos ao acordar, este vazio pardo, esta rotina pardacenta, de gestos autómatos, sorrisos pardos e afectos pardos, desgastados da paixão que um dia sentimos.
Parda esta esperança finita de chegar ao fim do dia, ainda acordados.
Pardacento este desgosto de não sermos outros, não termos outras vidas, outros horizontes,
outros desejos que não este: não saber -não querer saber- a intensidade deste cinzento, sufocante.
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para lá do papel do desejo e do esboço.
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para lá do papel que representamos, existe contudo ainda um céu oblíquo para nos encontrarmos, para nos parirmos outros, mais fortes e sábios, mais emotivos e puros do que este esboço, que fizeram de nós e nós, por distracção, permitimos.
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da parede de dentro para o ímpeto do gesto.
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e quando com coragem nos enfrentamos, do coração recebemos ainda assim sinais vitais, num ímpeto de realização final.
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Rasgo o tempo. o vento. o aço.
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Rasgo assim em mim este tempo de não reconhecimento de mim e sei que por muito que doa, eu sou aquele que o espelho me oferece e por muito que doa eu sou aquele que o vento fustiga e por muito que doa eu hoje decido que não permito o aço, em mim.
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ilumino-me.

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Música: Slap that Bass (Miguel Migs Petalpusher Remix), Ella Fitzgerald & Miguel Migs

23 comentários:

Pipa disse...

:) que fúria!

PreDatado disse...

Que bem!

Maria disse...

Bonito...
Boa semana!

Duarte disse...

Bonita arquitectura!!!
Rasgos arquitectónicos a condizer com palavras cheias de temperamento... até a música acompanha!

Que tenhas uma boa semana.

Abraços

Licínia Quitério disse...

Iluminas...

Beijo.

Teresa Durães disse...

e rasgas também a chuva?

(e a iluminação seria perfeita)

mateo disse...

À busca da luz.
Rasga sempre e tudo!
Bjs

Alien8 disse...

Voltarei. Com tempo.
Beijos.

Alien8 disse...

Voltei. Com tempo para apreciar o rasgar de cinzentos de aço volteando no tempo.

Estás, de facto, iluminada, e guardei para mim um pouquinho dessa luz.

Um beijo.

mdsol disse...

Hoje só deixo um
:))))

Vieira Calado disse...

Ilumina-se... e bem!

Cumprimentos meus.

Miguel Barroso disse...

É urgente! Potentíssima escrita.




Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Teresa Durães disse...

mas nem sempre é fácil de rasgar para avançar. há momentos em que só o vazio nos rodeia porque enquanto existir a dor, estamos vivos. no nada, nem por isso

Rui disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rui disse...

Adozinda não conseguia esquecer as palavras lidas na noite anterior. Há mais de uma hora sentada à frente da máquina de costura, na fábrica têxtil, não tinha ainda cosido nada.
Dada às insónias, lia tudo a que conseguia deitar a mão e, na véspera, tinha lido o conteúdo de vários dias da sua caixa de correio: dois folhetos do Continente, um da Worten, as promoções da Pizza Hut, um SPA que se inaugurou do outro lado da cidade, uma empresa que trabalhava o alumínio de muitas maneiras e feitios, uma senhora romena que passava a ferro e uma folha fotocopiada com um texto sobre algo que ela não percebeu lá muito bem. Mas que a deixou a pensar.
Assim estava, à frente da máquina de costura, olhar perdido no fundo da fábrica. Até que a colega do lado lhe chamou a atenção para o que estava a fazer. Sem dar por isso, tinha estado a rasgar o tecido que era suposto coser.

Rui disse...

Que tinha trocado os ésses pelos zês...

Idun disse...

sim, amiga arábica.necessário, ainda, reconhecermos o nosso próprio rosto, na multiplicidade de espelhos.
voltarei, para actualizar a leitura dos teus posts.ainda ando um pouco vazia de palavras...

marradinhas afectuosas

ze disse...

Ando deveras irritado com o facto de após ver publicado um texto (post), não poder (saber) lá voltar para corrigir, acrescentar, alterar.
Pode ser o meu destino aprender com isso. Cicatrizes.
Mas em relação a ti (ao teu), é mesmo esse o espírito (correcto)- sair do sofá, inquietares-te,agir o que é para agir, pensar o que é para pensar, não fugir daquilo que sabemos que não vai fugir de nós.

dona tela disse...

Oh os prédios da minha rua são muito mais feios.

Muitos cumprimentos.

Rosa dos Ventos disse...

Um profundo agradecimento de quem é um farrapo! :-((

Abraço

Marcia Barbieri disse...

Simplesmente lindo e rasguemos todos os tecidos melancólicos que nos prendem.

beijos ternos

mariab disse...

e como é catalisador da esperança ler isto e absorver essa tua luz! belo texto. beijos

© Piedade Araújo Sol disse...

como sempre, muito bom.

fica um beij