sábado, janeiro 17, 2009



No dia em que ficara sózinha, a mulher sentiu um ser estranho entre as sombras dos móveis, limpos de pó .
Era uma presença imperceptível, nunca ela, jamais o viu ou percebeu, onde se escondia.
Se dentro de alguma caixa, daquelas antigas, que ela guardava da avó, forradas a flanela quadriculada ou de flores miúdas, lembrando a chita dos aventais das varinas, se por ventura, dentro da sua imaginação.
Sentia, ainda assim, que a afagava na face, quando por fim adormecia, sem valiuns ou outros s.o.s., que não o cansaço e, muitas vezes, que a acordava de mansinho, farejando água nos seus olhos, ou résteas de sol, nos seus cabelos...


Sabia por ele, ou através da sua presença diáfona, quase espiritual, se tal ideia não for sacrilégio para os mais tementes, da necessidade de abrir a porta, da fome de ar ou de espaço.
Nomeado foi, logo ao terceiro dia, que a mulher sempre gostou de dar nomes às coisas e aos seres que aceitava em si, mas para aqui nenhum interesse tem, o nome que lhe deu ou que ainda lhe dá, nessas noites, em que a convidam para sair e ela, com um sorriso, se escusa.



E embora goste do ar frio da noite, das luzes vadias que dançam nas janelas dos prédios adormecidos, do sabor do whisky misturado com o do café, que lhe escalda os dedos nus de anéis, da música de um saxofone boémio, embore goste do cruzar de rostos e olhos que na noite acontecem, de aspirar os perfumes dos corpos estranhos que por ela passam, embora tudo isso, ainda exista dentro de si, ainda assim, fica.
Dele, nunca encontrou um pelo, dele nunca ouviu um som.

Sabe-o contudo, deitado na sua manta, olhos de jade no escuro da noite,desafiando a barreira de solidão, deste espaço tão seu, tão cópia sua, tão a si modelado...

Um dia -ou teria sido uma noite?- desabafou com alguém, que era como se vivesse com um gato.
Rápidamente lhe disseram: Cuidado! Quando uma mulher decide ter um gato é porque escolheu ser celibatária!
A mulher ficou contente, porque embora decididamente não tivesse escolhido fosse o que fosse, por fim, tinha conseguido explicar a presença de um gato -daquele gato, não de um gato qualquer - na sua vida.

Não se lembrava de lhe ter aberto a porta, nem de o ter desejado. Apenas se apercebera dele, no seu espaço.
Por isso, fica pouco à vontade, cada vez que não foi ou não vai, sem causa aparente, beber um copo à noite ou mostrar através dos seus olhos, o mar do Guincho. Como explicar aos outros a presença constante e atenta de um gato (avesso a mares, a olhares e whiskys duplos), sem a chamada de um qualquer serviço de urgências ao domicilio? E quando a levassem, quem ficaria para abrir a porta ao gato, aos primeiros sinais do dia?

Fica tão bem consigo e com ele, entre as páginas já escritas de uma vida ou de um livro ainda por ler..

Afagado gato, resistente ao tempo...









Música: Ai Mouraria, Rão Kyao

14 comentários:

Duarte disse...

Excelente capacidade criativa a tua. Este modo de narrar é do meu agrado, intriga, apaixona. Bonito gato!

Intrigado estou... ainda que satisfeito, com a tua visita ao meu sitio... as tuas palavras causaram-me arrepios. Algo que há muito não sentia. São poucas as pessoas que sabem que faço colecção de lápis, quem es tu? Quem nos conhece?

Um amigo, se o é, vai apegado à minha alma até ao fim. Sou pessoa de fortes convicções. Não quero passar pela vida como mero transeunte.

Obrigado pelos qualificativos, desejo continuar a ser merecedor deles.

Surpreendido e agradecido

JPD disse...

Olá

Foste galardoada com o Prémio «GAIOLA DE DARWIN»

Com enorme prazer.

Está à tua disposição

Bjs

Alien8 disse...

Arabica,

Linda homenagem aos gatos, através de um espécime visto sob um prisma diferente.

Fico feliz por já ter botas (o gato). O da imagem é imponente. Deve ser um convencido dos diabos!

Fico também feliz por te ler, eu, que nem sei o que são gatos :)))

Que resista mais e mais ao tempo e a tudo.

Um abraço.

tinta permanente disse...

Não sei, não sei...
Mas o fatalista 'saxofone boémio' será assim fatal que 'quando uma mulher decide ter um gato é porque escolheu ser celibatária'?...
Talvez por isso, a Dúvida tenha deixado, ao gato... um par de botas!...
abraços!

paradoXos disse...

pudesse eu ser esse acto, esse gato inspirador... de um texto assim... desengatado!

teus abraço e um fim-de-semana-bom!

mdsol disse...

Gostei de ler!
:))

Rosa dos Ventos disse...

Um texto encantatório para quem tem três gatas, um gato e não é celibatária! :-))
Fotografia e música perfeitamente adequadas à criatividade do texto!

Abraço

pb disse...

Prontos, arranjaste um gato !! gostei do texto, és tu !! Beijo

M. disse...

Tem um ar tão misterioso no soar da leitura que a certa altura parece que estou a ler com os olhos do gato. como ouvinte ou protagonista dos sentires da dona.

E a partir do seu olhar na imagem mais convicta fico. Gato atento!

beijo a ti e afago no gato :)

Val Du disse...

Oiiiii!

Bom domingo e boa semana.

Que gatinho lindo!

Beijos.

heretico disse...

"dou-te o nome, dou-te a minha vida"!...


nem o gato te "salva" rsss

gostei muito.

beijos

mariab disse...

Gostei muito deste texto. Imaginativo, subtil. Maravilhosa presença a desse gato, nuca entrevisto nem desejado... :) Beijos

pront'habitar disse...

li.




e




reli.

élis/lizzie disse...

Tive, ou fui tida,por um gato de olhar agudo. Não me mandou ser celibatária, não senhora, mas exigiu viagens e mudanças. Parecia um farol de vigia de personalidade tão forte que nunca mudou a língua quando mudou de país. Tinha um miar altivo e aparentemente indiferente.
Morreu de velho mas mesmo assim sempre atento.

Hoje a gata Pepa Imaculada quis-me prender. Deitou-se e adormeceu na bagagem, já as horas urgiam.

Sabe que nunca lhe esquecerei os pelos.

besos, niña