quarta-feira, julho 29, 2009


Muitas vezes à rapariga tinha sido imposta a paragem.
Muitas vezes se tinha quedado muda em reflexões, cega às árvores que dançavam para lá dos vidros enjanelados de luz, surda às vozes que a convidavam a sair.
Muitas vezes, se tinha debatido a rapariga, no paradigma da desconstrução da poesia que a movia, como se no dia em que a obra estivesse completa, o puzzle lhe aparecesse como se de uma vida nova se tratasse.
Como se a racionalização dos gestos lhe trouxesse respostas à velha inquietação da alma, como se a inteligência despida da emoção no momento das decisões, tomadas ou preteridas, lhe descobrisse uma nova perspectiva de vida.
Propôs-se entre quatro paredes a analisar a natureza da pedra, a perceber a (in)significância da carne, a desfiar lentamente os ângulos agudos das palavras, como se da matéria do papel, fosse possível fazer nascer um novo rio. A juzante de si mesma.
Equilibrou sinónimos na imperfeição das arestas que se não tocavam.
Construiu realidades a que não soube dar nome.
Contínuamente, peça a peça, desconstruiu o grande acto de vida, contido em si.
No chão, brincou com as pequenas marionetes que desenhou para se ver reflectida em cada acto. Leal à memória, refez percursos e deu voz a personagens de pano usado.
Acordou num cubo cinzento, estrangulada de silêncio.
Entre quatro paredes, percebeu, que a poesia que a tinha movido dia após dia, não era puzzle que se desconstruísse, na realização de uma ideia, que buscava perfeição.

A vida será sempre mais, ainda que na imperfeição do todo que a há-de consumir.


E de novo se reconstruíu.





segunda-feira, julho 27, 2009




Estou farta de estar com a telha.




quarta-feira, julho 22, 2009

Como entender não o vôo das aves, mas nas árvores, o das folhas,
sem me entristecer?
Como descrever a breve interrupção entre o corpo e a raíz,
o breve intervalo, errático, da seiva?

de mim, em mim.



sábado, julho 18, 2009


Deixo-vos um abraço.

quinta-feira, julho 09, 2009



Tempo de pedra ou tempo de mar?


Cercadas e profundas são as águas do ser mergulhado em solidão.
E ainda que aparentemente as pedras sejam ponte,
não serão mais que defesas.
Não aos outros.
Mas ao mar.










[ Viver a meia idade num relacionamento com um parceiro pode implicar em desafios cognitivos e sociais que têm um efeito de proteção contra a debilidade cognitiva na velhice, Krister Hakannson ]






Grata à Gasolina http://palavrasnaarvore.blogspot.com/


e à Laura http://pi-lau.blogspot.com/






"O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento,
seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores."
"Sobre o significado de LEMNISCATA: “curva geométrica com forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.”
Lemniscato: ornado de fitas; Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora).
Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.
Texto da editora de “Pérola da cultura”.






Dedico-o a todos os presentes
nesta pequena dose
onde quer que estejam contidos.
Independentemente
de coordenadas geográficas
independentemente
de rumos ou estradas escolhidas.
Infinitamente
em nós e laços,
aqui
existem.

quinta-feira, junho 25, 2009







Sabes querida, eu acredito que as mãos trazem em si mensagens que nem sempre os olhos conseguem desvendar na leitura.
Eu intuio que é na pele, destas que se dão e em si recebem, que reside um qualquer código genético, que poderá salvar o mundo.
Ou apenas salvar-me a mim e a ti, da distância geográfica que nos separa.
E será através da pele que as nossas mãos se reconhecerão.

É por isso.

É por isso que as mãos sempre foram tão importantes para mim.

Um destes dias, quando os teus olhos procurarem no recorte das estrelas desenhadas por mim, a magia da noite, conto-te uma história de mãos, de mãos dadas, contigo.






"...era uma vez umas mãos que há tanto tempo
não mediam o seu tamanho por outras,
que já nem sabiam o tamanho,
que as mãos, poderiam ter. "


segunda-feira, junho 22, 2009

E porque me falam em ecologia
e porque gosto do silêncio dos lugares esquecidos
e porque já tenho saudades do Gerês e de outros oásis, entretanto encontrados...



















preservemos.

Aqui e além das nossas vulgares rotas.




E porque falar do Gerês é falar de Miguel Torga, viajemos também nas suas palavras,


Aparelhei o barco da ilusão
e reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho,
e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.




quarta-feira, junho 17, 2009

Algo me diz que estou a precisar de férias...



sábado, junho 13, 2009









Muitas vezes tenho reflectido sobre a sorte de não viver num condominio fechado.
E até de não conduzir. É sem dúvida também nas ruas e transportes públicos desta minha cidade, que tomo a medida real do povo que somos. Nem sempre o contacto é de esperança. Nem sempre o conhecimento do outro, nos traz alguma empatia ou conforto. Nem sempre acontece gostarmos do que vemos. Mas a realidade, transpõe coerente e racionalmente o que nos identifica nos outros. É também no choque, no assombro, que tomamos a medida do real que somos.


Individual e colectivamente vamos abordando a realidade alheia: dois passos à frente, um atrás.Encontros de segundos, outros mais alongados no tempo e no espaço, todos são plataforma de possível conhecimento e crescimentom ainda que a percepção sem concepção seja cega. Porque será que uma pessoa má, sem valores, amarga, invejosa, mentirosa, lê diárimente, a caminho do emprego, Paulo Coelho? Que procurará nele?Que lhe dará ele?

Que será que aconteceu à mulher que entra no café e abruptamente à laia de troco, sacode para o balcão um "só encontro merda no meu caminho"? Que vida terá a outra que da sua janela no Bairro Alto desabafa com a vizinha, "oh filha vou mudar a fralda ao velho, que eu tenho uma sina fodida "? Sei que são também estas, as pessoas reais da minha cidade, para lá do jazz à quinta no ccb, para lá da Catarina com o doce sabor a maçã de António Alçada Baptista e outras Severas, de quem reza a história. E assim, atenta aos sinais e aos outros que comigo se cruzam, gosto de trazer para casa um sinal que seja de mudança. Nem sempre acontece, mas aconteceu ontem.


Estavam 37º e o sol a pique. Sentada numa paragem de autocarro, vi chegar o grupo de homens,
oriundo da mesquita, onde tinham terminado os serviços religiosos. Atrás deles, caminha um homem sózinho, carregando um saco que se adivinha pesado. Agora todos nós fazemos parte do mesmo grupo (indiferente a raças, credos, culturas): estamos a um passo da Gulbenkian, numa paragem, aguardando o mesmo autocarro, sob um sol rigoroso e inclemente.


A surpresa começa a acontecer, quando o último homem, o do saco pesado, vem ao nosso encontro. Abrindo-o, apenas com um sorriso, oferece o (ainda) misterioso conteúdo. Do primeiro ao último homem percorridos, todos retiram do seu interior uma pequena garrafa de água. Incrédula, percebo que agora se dirige a mim. Também eu sou abençoada com uma garrafa de água, que agradeço retribuindo o sorriso.


São estes retalhos de vida real que me fazem acreditar na mudança.
São estes pequenos recipientes de água e de esperança, que me fazem validar o pensamento:
a mudança somos nós.


A mudança está em nós, se metafóricamente não vivermos num condomínio fechado e se, sem qualquer metáfora, conseguirmos sair à rua, crentes de que não somos donos de nenhuma verdade absoluta. É afinal tudo tão relativo, neste mundo em constante mutação...







Música: Ray Lema, e Búzios de Ana Moura.

quinta-feira, junho 11, 2009





Na aresta escondida do pronome
existe um instinto possessivo alarmantemente ganancioso
de necessidade territorial.

O pronome guarda no seu avesso,
uma âncora de ferro,
vulgar e ácidamente temporal,
à mercê das correntes subterrâneas do "eu".

Na tarde, sem espelho que me devolva sorriso, careta ou resposta,
ainda me debato na associação de ideias:
-quando será o pronome tão sómente, pronúncio de afecto?
-quando será que alguém o deve teimar, sem aceitar a censura?


[ não importa que não seja meu,

de alguma forma -ainda que estranha a convenções,
liberdades individuais, destinos, sinas, corpos ou posses, é "meu" ]




Música: Princess of the sand (Strange meeting II), Nick Drake


domingo, junho 07, 2009

O puto cresceu, Dulce.
Repara na mudança: é ele que hoje nos leva para a boémia da noite.
A cerveja gelada. A caipirinha atordoante.O puto cresceu, Dulce.
Repara na precisão dos seus dedos nas cordas sensíveis.
No seu semblante sereno e atento.
No sorriso feliz, mas timido, quando os outros que o acompanham,
lhe fazem saltar o seu segundo solo.
Olho-te Dulce, tens um olhar cheio de brilho e de amor,
de quem conseguiu fintar o labirinto, descobrir a saída e, com mais ou menos sacos, fazer frente à noite.
Faço-te uma careta, o açúcar de tia emprestada,
amiga herdada às primeiras horas de nascença como um apêndice,
sobe-me à cabeça, o puto cresceu, Dulce.
Lembro-me dele com cinco dias. Tinhas um cão e eu tinha medo de cães. imagina.
O cão lambia-me as mãos e eu lavei-as para pegar no puto.
Há sete anos vi-lhe esta mesma expressão enquanto víamos o "Fabuloso destino de Amélie Poulain", sentados nas cadeiras do Fonte Nova, lembras-te? Era dia de ano novo.
Mal tinhamos dormido, estavamos bebedas de sono.
E ele atento, olhos no ecran, maravilhado com os olhos da Amélie.
Mergulhado no enredo que se estendia mágico, mas complexo, para um puto de nove anos.Também foi este ar que lhe vi quando aos 11 anos, me descreveu a Praça Jamal El Fna.
O puto cresceu.
Um destes dias vai encontrar a sua primeira Amélie, e vai-se perder numa qualquer cidade desconhecida, agora que sabe como a música se constroi, meia dose de intuição e sensibilidade, outra meia de prática, e mais uma, bem medida e inteira, de estudo e atenção.
O puto cresceu, Dulce. Olho o Eduardo, pai nas nuvens, as tias verdadeiras, as restantes emprestadas, os tios emprestados, todos nós embevecidos.
O puto cresceu, Dulce.
E nós também.









Música: Wonderwall, The Coltrane Quartet.

quinta-feira, junho 04, 2009





inverter o caldo entornado.



conseguiremos? :)






Música: Purple Rain.

domingo, maio 31, 2009

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Molecular o desassossego dos corpos no encontro com a seiva.
Molecular o pó na brisa, nas folhas, nas asas.
ah!... a inquietude das asas!
talvez no momento
talvez,
se aquiete.

E depois?


[a liberdade das libelinhas
é um micro
organismo
mutualista
-entre dias supremos
e noites infímas-
que nos desperta,
inquietando]








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sexta-feira, maio 29, 2009

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diz-me em tom baixinho
(de quem teme acordar fantasmas)
que cheiro tem o homem
que possuiu o animal.

.desenha no silêncio do papel
as teias de serpente
na trama do véu.

mas não tragas
do alçapão da memória
o penoso tear:

suavemente, traço, ponto, cruz e de novo
traço
em grão,
os rostos de sal.
Espaço.

Embala
em braços velhos de força
o amor que não nasceu
e
se ainda tiveres folego,
diz-me em tom baixinho
(de quem teme acordar fantasmas)
que cheiro tem o animal que possuiu o homem.
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quarta-feira, maio 27, 2009

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...empiricamente induzido na branca ardósia...


ainda que,


o inteiro seja mais do que a simples soma de suas partes.
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[ se hoje te encontrasse Amor,

lembrar-te-ia, Amor, das ardósias em branco

que coloriste e depois, descuidado,

deixaste ao abandono de cada ser ...]

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segunda-feira, maio 25, 2009

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(com) fusão
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Música: clicar em Jazza-me muito, nos gadgets da margem direita.
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quinta-feira, maio 21, 2009

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conheço uma divindade

com o poder do amor [ou do ódio].

conheço uma divindade

com o poder de construir [ou destruir].

conheço uma divindade

com o poder de ser diferente [ou indiferente].

conheço uma divindade

com o poder de curar [ou matar].

conheço uma divindade

com o poder de unir [ou segregar].

conheço uma divindade

com o poder da verdade [ou da mentira].

conheço uma divindade

com o poder da justiça [ou da injustiça].

conheço uma divindade

com o poder da sabedoria [ou da ignorância].

conheço uma divindade

com o poder de ser livre [ou escravo].

conheço uma divindade

que a muitos milénios e terramotos

tem sobrevivido e resistido.

conheço uma divindade

apenas uma, que não carece de "cella" de pedra.

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templo de carne, no resguardo da alma,

parte mais sagrada do seu ser.

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chama-se homem e só a ele pertence,

a escolha do poder em sua mão.



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Música: pois continuo ouvindo rádio, europalx, 90.4.

segunda-feira, maio 18, 2009

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não quero
medir
a distância
abstracta
entre
a
casa
e o velho casco,
no
tempo liquído
da
memória.
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Não posso medir
a
bissetriz
incorrecta
dos
ângulos
nos
vértices imaginados
em reflexão
do tempo.
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Não sei.
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Como se mede o caudal de um rio
à superfície
de uma tão ténue
linha de água?
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Música: 90.40 europalx ...dream a litle dream of me?
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quinta-feira, maio 14, 2009

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"céu saturado sobre terra anoitecida"
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